{"id":1106,"date":"2020-12-22T15:02:53","date_gmt":"2020-12-22T18:02:53","guid":{"rendered":"http:\/\/saudeplanetaria.iea.usp.br\/?p=1106"},"modified":"2020-12-22T17:39:47","modified_gmt":"2020-12-22T20:39:47","slug":"sistemas-alimentares-alimentos-que-nao-alimentam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/saudeplanetaria.iea.usp.br\/pt\/sistemas-alimentares-alimentos-que-nao-alimentam\/","title":{"rendered":"&#8221;Alimentos que n\u00e3o alimentam&#8221;, por Renata Simoni"},"content":{"rendered":"<span style=\"font-weight: 400;\">\u201cN\u00f3s criamos uma demanda insana por alimentos que n\u00e3o nos alimentam, com a justificativa de nos alimentarmos, e com isso adoecemos o planeta e a humanidade\u201d. Essa frase, proferida por Juliana T\u00e2ngari, diretora do Instituto Comida do Amanh\u00e3, marcou o tom dos debates do Painel 3 &#8211; \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Sistemas alimentares: impactos na sa\u00fade, meio ambiente e influenciadores<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d do semin\u00e1rio \u201c<\/span><b>Sa\u00fade Planet\u00e1ria na Am\u00e9rica Latina: hora de agir!<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d, ocorrido em dezembro de 2020. O painel, organizado e moderado pelas Profas. Raquel Santiago, da Universidade Federal de Goi\u00e1s, e Dirce Marchioni, do Departamento de Nutri\u00e7\u00e3o da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP, foi dividido em duas mesas de debates que exploraram de forma complementar as nuances pol\u00edticas, econ\u00f4micas, ambientais e sociais dos sistemas alimentares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na primeira mesa, intitulada \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O papel dos sistemas alimentares na sindemia global de desnutri\u00e7\u00e3o, obesidade e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d, Juliana T\u00e2ngari apontou os custos ocultos e as falhas do sistema alimentar vigente como grandes desafios que o mundo enfrenta hoje para al\u00e9m da pandemia do Covid19. Segundo T\u00e2ngari, que \u00e9 advogada, mestre em Direito Civil, e ex-presidente do Conselho Municipal de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional do Rio de Janeiro,\u00a0 tais falhas incluem impactos sociais, viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, bem estar animal, entre outros, mas principalmente desnutri\u00e7\u00e3o, obesidade e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. No relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o de Obesidade do The Lancet de 2019, chamado \u201cSindemia Global\u201d, considera-se que essas tr\u00eas pandemias, por compartilharem fatores comuns e atingirem grande parte da popula\u00e7\u00e3o mundial, formam uma sindemia. Tal defini\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para que se adote solu\u00e7\u00f5es que passam pelo reconhecimento da interconex\u00e3o entre elas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diante desse cen\u00e1rio, existe um paradoxo. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e agropecu\u00e1ria n\u00e3o parou de crescer nos \u00faltimos anos, mas, mesmo assim, o mundo n\u00e3o conseguiu acabar com a m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o. Se por um lado h\u00e1 um volume crescente de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, por outro, estima-se que entre 690 e 750 milh\u00f5es de pessoas passavam fome, em 2019, segundo a FAO. Outras 100 milh\u00f5es dever\u00e3o se somar a esse contingente devido \u00e0 crise econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria decorrente do Covid19. Como um terceiro componente, soma-se um ex\u00e9rcito de 650 milh\u00f5es de pessoas obesas, em meio a dois bilh\u00f5es de pessoas com excesso de peso, levando cerca de quatro milh\u00f5es de pessoas a \u00f3bito por ano, segundo dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Brasil, em 2014, comemorou-se a sa\u00edda do pa\u00eds do mapa da fome, por\u00e9m este ano, pela publica\u00e7\u00e3o do IBGE da Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares, atingimos mais de 10 milh\u00f5es de pessoas em estado de fome, retornando ao mapa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A obesidade tamb\u00e9m segue crescendo &#8211; temos dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o brasileira com excesso de peso, sendo um quarto da popula\u00e7\u00e3o adulta obesa. O relat\u00f3rio da FAO deste ano mostra que o mundo est\u00e1 fora das metas estipuladas para 2030, o que indica que n\u00e3o conseguiremos zerar a fome no tempo esperado, somando 3 bilh\u00f5es de pessoas sem condi\u00e7\u00f5es de se alimentar de forma saud\u00e1vel. \u201cOu o custo da alimenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito alto, ou as pessoas est\u00e3o muito pobres\u201d, alerta T\u00e2ngari.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para completar essa receita indigesta, existem os impactos clim\u00e1ticos provocados pelo sistema alimentar. A agropecu\u00e1ria, al\u00e9m de ser a maior amea\u00e7a \u00e0 perda de biodiversidade no mundo, \u00e9 respons\u00e1vel por cerca de \u2153 das emiss\u00f5es de GEE (gases de efeito estufa) globais, sendo que metade do volume \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de gado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>(Des)constru\u00e7\u00e3o coletiva para a mudan\u00e7a<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas) aponta para o valor da mudan\u00e7a de dieta como uma op\u00e7\u00e3o de fato eficiente para conter a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e aumentar a seguran\u00e7a alimentar. Como essa mudan\u00e7a pode ser feita? Segundo Juliana T\u00e2ngari, o primeiro passo \u00e9 reconhecer que apenas parte do que comemos \u00e9 uma decis\u00e3o individual ou familiar. A maior parte dessa decis\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o coletiva, moldada por nossas culturas e atividades pol\u00edticas. \u201cNos tornarmos conscientes disso \u00e9 a forma para criar a mudan\u00e7a\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No projeto Comida do Amanh\u00e3, do qual \u00e9 diretora, Juliana tem trabalhado a pot\u00eancia transformadora do consumo alimentar e das mudan\u00e7as de dietas. Em 2019, realizaram o lan\u00e7amento brasileiro, no Rio de Janeiro, do Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o do The Lancet sobre Dietas na Sa\u00fade Planet\u00e1ria. Isso motivou sua equipe a construir uma obra coletiva de receitas consideradas saud\u00e1veis e sustent\u00e1veis (livro \u201cIsso N\u00e3o \u00e9 Apenas um Livro de Receitas\u201d), dispon\u00edvel gratuitamente no site <\/span><a href=\"https:\/\/www.comidadoamanha.org\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">comidadoamanha.org<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Educomunica\u00e7\u00e3o e Culin\u00e1ria na pr\u00e1tica<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No debate, ficou clara a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o nessa mudan\u00e7a dos sistemas alimentares que se quer construir. Ariela Doctors, chefe de cozinha com experi\u00eancia em tele-educa\u00e7\u00e3o, contou como idealizou e tem conduzido o projeto <\/span><a href=\"https:\/\/www.comidaecultura.com\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Comida e Cultura<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Segundo ela, os problemas do nosso tempo, mencionados por T\u00e2ngari, s\u00e3o sist\u00eamicos, interconectados e interdependentes, exigindo mudan\u00e7as de paradigma e uma concep\u00e7\u00e3o hol\u00edstica e sist\u00eamica na busca por solu\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Para que haja uma mudan\u00e7a de comportamento, \u00e9 necess\u00e1rio que se fa\u00e7a uma mudan\u00e7a de estrutura, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel, segundo Peter Senge, se houver aprendizagem\u201d, destaca Ariela. O Projeto Comida e Cultura traz aulas semanais para crian\u00e7as sobre culin\u00e1ria no ensino infantil e fundamental em uma escola de S\u00e3o Paulo. Cozinhando, s\u00e3o abordados os processos produtivos e de proced\u00eancia dos alimentos, a ancestralidade e a cultura do alimento, sua embalagem e rotulagem, seu descarte e desperd\u00edcio. Tal abordagem, segundo ela, transforma a rela\u00e7\u00e3o com o alimento e o consumo e abre espa\u00e7o para refletirmos sobre nossas escolhas, com maior autonomia e liberdade. Mais informa\u00e7\u00f5es sobre o projeto est\u00e3o no site <\/span><a href=\"http:\/\/www.comidaecultura.com\"><span style=\"font-weight: 400;\">www.comidaecultura.com<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Dra. Aline Carvalho Martins, professora do Departamento de Nutri\u00e7\u00e3o da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica e pesquisadora no Grupo Sa\u00fade Planet\u00e1ria, IEA\/USP, tamb\u00e9m ressaltou a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o, Ela coordena o projeto Sustentarea, que visa a troca de saberes com a comunidade sobre sistemas alimentares. O projeto, iniciado em 2012, teve como primeiro foco de atua\u00e7\u00e3o o elevado consumo de carne em S\u00e3o Paulo, que traz impactos na sa\u00fade das pessoas e do meio ambiente. Aline, durante seu mestrado, desenvolveu, junto com sua orientadora, Profa. Dirce Marchioni, o Projeto Segunda sem Carne na FSP, com o objetivo de fazer uma interven\u00e7\u00e3o no Restaurante Universit\u00e1rio. Ap\u00f3s um ano, percebeu que 40% das pessoas reduziram seu consumo de carne tamb\u00e9m fora da faculdade. Em 2016, foi ent\u00e3o criado o Sustentarea, que hoje conta com 40 membros volunt\u00e1rios por todo o Brasil. Mais informa\u00e7\u00f5es sobre o projeto est\u00e3o dispon\u00edveis no site do programa: <\/span><a href=\"http:\/\/www.fsp.usp.br\/sustentarea\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">sustentarea.com.br<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 Profa. Dra. Thais Mauad, titular do Departamento de Patologia da Universidade de S\u00e3o Paulo e coordenadora do grupo de estudos de Agricultura Urbana, compartilhou sua experi\u00eancia com o curso de Medicina Culin\u00e1ria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). A horta da FMUSP, que existe desde 2013, serviu de inspira\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o do curso, em que os alunos s\u00e3o convidados a cozinhar. O Medicina Culin\u00e1ria \u00e9 realizado em parceria com chefs de cozinha, nutricionistas e m\u00e9dicos, com o objetivo de trazer para a comunidade m\u00e9dica a import\u00e2ncia da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, Katiane Marques, que \u00e9 estudante de Direito no Grupo de Estudos Afro-brasileiros, Ind\u00edgenas e Africanos (NEAB\/UFRGS) e agente comunit\u00e1ria de sa\u00fade em Porto Alegre, contou como a comunica\u00e7\u00e3o ajuda na promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, principalmente entre a popula\u00e7\u00e3o preta. Katiane traz um relato pessoal da Unidade de Sa\u00fade em que trabalha. Durante a pandemia, foi criado um blog e uma r\u00e1dio via WhatsApp para compartilhar informa\u00e7\u00f5es com os pacientes, sobre diversos assuntos, inclusive sobre alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. \u201cEsse trabalho tem sido muito produtivo dentro da comunidade onde atuo.\u201d<\/span><\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o: Daniela Vianna<\/strong><\/p>\n<p><strong>Card\/Arte: Marcelo Marcelino<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Confira a grava\u00e7\u00e3o com o painel completo neste link: <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ZqpVHTAg240\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ZqpVHTAg240<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Confira mais informa\u00e7\u00f5es sobre as discuss\u00f5es do Painel 3, na mesa de debates sobre \u201c<\/span><a href=\"https:\/\/saudeplanetaria.iea.usp.br\/pt\/category\/news\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Modos de Consumo Contempor\u00e2neos: perspectivas futuras<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Links \u00fateis:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Projeto Comida do Amanh\u00e3 &#8211; <\/span><a href=\"https:\/\/www.comidadoamanha.org\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.comidadoamanha.org\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Projeto Comida e Cultura &#8211; <\/span><a href=\"https:\/\/www.comidaecultura.com\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.comidaecultura.com\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Projeto Sustentarea &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/www.fsp.usp.br\/sustentarea\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">http:\/\/www.fsp.usp.br\/sustentarea\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Relat\u00f3rio \u201cA Sindemia Global da Obesidade, Desnutri\u00e7\u00e3o e Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas\u201d, Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o The Lancet, traduzida para o portugu\u00eas: <\/span><a href=\"https:\/\/crn5.org.br\/wp-content\/uploads\/Vers%c3%a3o-portugu%c3%aas-LANCET-2019-Sindemia_compressed-1.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/crn5.org.br\/wp-content\/uploads\/Vers%c3%a3o-portugu%c3%aas-LANCET-2019-Sindemia_compressed-1.pdf<\/span><\/a>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00f3s criamos uma demanda insana por alimentos que n\u00e3o nos alimentam, com a justificativa de nos alimentarmos, e com isso adoecemos o planeta e a humanidade\u201d. 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