Patricia Zimermann e Daniela Vianna
O lançamento do relatório nacional da pesquisa “Avanço e integração das políticas de clima e saúde no Brasil: Percepções de stakeholders brasileiros” representou um marco na análise dos desafios e oportunidades para a convergência das políticas de clima e saúde no país. O evento, gratuito e aberto ao público, foi realizado no dia 4 de fevereiro de 2025, na sala Alfredo Bosi, no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), em São Paulo, e contou com transmissão ao vivo, permitindo ampla participação e engajamento da audiência.
O estudo, conduzido no Brasil por Daniela Vianna, Patricia Zimermann e António Mauro Saraiva, pesquisadores do grupo Saúde Planetária Brasil, vinculado ao IEA-USP, integrou um projeto internacional liderado pelo Center for Climate Change Communication (4C), da George Mason University (EUA), com financiamento da Wellcome Trust. A pesquisa foi realizada em seis países — Alemanha, Brasil, Caribe, Estados Unidos, Quênia e Reino Unido — e em breve, será divulgado um relatório-síntese reunindo os resultados multipaíses.
O relatório brasileiro foi baseado nas percepções de 33 representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de membros de órgãos públicos federais, ONGs, Think Tanks e da academia envolvidos direta ou indiretamente na formulação de políticas no país. A pesquisa revelou que as políticas públicas brasileiras de clima e saúde estão pouco ou nada conectadas e que as mudanças climáticas já impactam significativamente a saúde humana, com eventos extremos cada vez mais frequentes, como a tragédia climática no Rio Grande do Sul, inundações, secas, epidemias como a de Dengue e ondas de calor.
Ao sintetizar as percepções desses atores sobre o status atual, ideais para integração das políticas, barreiras, oportunidades e estratégias para superá-las, a análise revelou que as políticas públicas brasileiras existentes não conseguem assegurar soluções para os problemas decorrentes das mudanças climáticas.
“Há um consenso de que as políticas deveriam estar mais conectadas, potencializando benefícios mútuos para as áreas de saúde e clima. Porém, muitos apontam barreiras para essa integração, como falta de planejamento estratégico e de percepção de riscos, ausência de dados, polarização política, defesa de interesses adquiridos, silos e falta de diálogo entre órgãos governamentais e setores da sociedade e limitação de recursos e financiamentos”, escrevem os autores.
Dentre as recomendações dos próprios entrevistados para a integração das políticas de clima e saúde estão: melhorias na comunicação e na educação; ampliação na produção e disseminação de pesquisas e dados sobre os impactos do clima na saúde e na economia, bem como sobre os benefícios da ação climática para a saúde e outras áreas; e o fortalecimento da governança política para um planejamento integrado de país.
Sobre o lançamento

Da esquerda para a direita, Marcio Astrini (OC), os autores António Saraiva, Daniela Vianna e Patricia Zimermann, do SPBr, e climatologista Carlos Nobre. Crédito: Leonor Calasans/IEA-USP
O lançamento do estudo contou com a participação de Edward Maibach, coordenador internacional do projeto pela George Mason University. Durante o evento, os autores compartilharam os principais resultados da pesquisa, proporcionando um espaço de diálogo e troca de ideias com convidados especiais. A participação de especialistas enriqueceu o debate ao oferecer diferentes perspectivas sobre a aplicabilidade dos dados em diversas práticas profissionais. Além disso, foram discutidas as principais barreiras e soluções para aprimorar a convergência dessas políticas no país em diferentes horizontes temporais: curto, médio e longo prazo.
Adriana Brito, diretora substituta do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, destacou que os desafios apontados no estudo estavam “totalmente alinhados aos problemas enfrentados no dia a dia da construção de políticas integradas de clima e saúde”, chamando atenção para as barreiras identificadas. Entre elas, enfatizou a falta de diálogo e a departamentalização entre diferentes setores e ministérios, bem como a necessidade de melhor capacitação dos gestores públicos. Para Adriana, a necessidade de uma abordagem holística é fundamental, e o relatório enfatizou corretamente a “importância da integração com outros setores”. Ela ressaltou ainda que planejamento estratégico, gestão integrada, melhorias na comunicação e capacitação contínua são essenciais para avançar.
A médica e diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador no Ministério da Saúde do Brasil, Dra. Agnes Soares, abordou a relevância da COP 30 no Brasil, em 2025, e o papel do estudo na formulação de estratégias para o evento. Segundo ela, “o estudo contribui para sistematizar o problema e fornecer um caminho claro sobre o que o setor da saúde precisa saber e fazer para agir”. Ela enfatizou a necessidade de ações intersetoriais, além da importância do programa Adapta SUS (2023) para garantir equidade na saúde e fortalecer a resiliência climática das comunidades vulneráveis. Corroborando o estudo, destacou a capilaridade do Sistema Único de Saúde como uma oportunidade para ampliar a interconexão entre as questões climáticas e de saúde nas diferentes geografias e territórios do país. Ressaltou, ainda, a importância da participação social na vigilância em saúde, com ampliação do foco em prevenção, não apenas na doença.
O cientista climático Dr. Carlos Nobre, catedrático do IEA-USP, membro e autor de relatórios do IPCC e referência internacional em mudanças climáticas, trouxe um alerta contundente sobre a gravidade da emergência climática, utilizando a analogia da “pandemia climática” para reforçar a urgência de ações baseadas na ciência. Reiterou que a crise climática, assim como a pandemia da COVID-19, gera prejuízos econômicos, ameaças, riscos e perdas de vidas, além de aproximar a Amazônia do chamado “ponto de não retorno”. Diante do atual contexto de aumento – em vez de redução – das emissões de gases de efeito estufa globalmente, alertou: “Se não zerarmos as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050, chegaremos a 2,5 graus Celsius [de aumento médio da temperatura] na metade do século, podendo chegar a 3 ou 4 graus em 2100. Isso é um ecocídio. O Rio de Janeiro poderá ter 250 dias anuais inabitáveis. Toda a latitude média do planeta seria inabitável”. Nobre ressalta, ainda, que isso impacta diretamente a saúde humana. “A Organização Mundial da Saúde já estima [hoje] 500 mil mortes por ano em decorrência das ondas de calor.”
Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, criticou a postura dos governantes, destacando que muitas promessas feitas nas COPs não são cumpridas, o que agrava a crise climática e sanitária. Segundo ele, “há graves problemas de gestão, falta de planejamento e ausência de protocolos eficazes para momentos de crise”, o que reforça a necessidade de uma abordagem intersetorial.
Sérgio Xavier, coordenador-executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), chamou atenção para o perigo sobre a “desconexão da sociedade com a natureza e para a fragmentação dos esforços”, o que dificulta soluções integradas. Ele citou uma “crise de percepção” em que vivemos e mencionou avanços possíveis por meio do Plano Clima e do Comitê Interministerial de Mudança do Clima. Além disso, destacou que a COP 30 será uma oportunidade para ampliar a discussão sobre novos modelos de negócios sustentáveis.
O evento de lançamento reforçou a importância da pesquisa como ferramenta para embasar políticas públicas mais eficazes e interconectadas, promovendo debates qualificados e a construção de estratégias para enfrentar os desafios da integração entre clima e saúde no Brasil.
O lançamento do estudo também repercutiu na imprensa. Confira abaixo alguns links de notícias sobre a pesquisa.
- Jornal da USP. Estudo mapeia desconexão entre políticas de clima e saúde no Brasil. Texto: Herton Escobar. Disponível aqui. Publicado em 04 de fevereiro de 2025.
- Folha de São Paulo. Falta de integração entre políticas do clima e da saúde sobrecarregará ainda mais o SUS, diz estudo. Texto Cláudia Collucci. Disponível aqui. Publicado em 05 de fevereiro de 2025.
- Instituto Climainfo. Estudo mostra desconexão entre políticas climáticas e de saúde pública no Brasil. Disponível aqui. Publicado em 06 de fevereiro de 2025.
- Jornal da Cultura (TV Cultura). Disponível aqui. Matéria é transmitida a partir dos 14 minutos e 56 segundos neste link. Programa exibido em 12/02/2025.